Aprenda a ler 14
- Luís Alberto C. Caldas

- 11 de set. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 14 de set. de 2025
[F-009] Aprenda a ler a frase: “Daqui a 50 anos, a ciência terá matado a alma”.
Essa é primeira frase do capítulo “Daqui a 50 anos: a morte da alma?”, do livro “Ciência na Alma: escritos de um racionalista fervoroso” de Richard Dawkins. Quem conhece o autor sabe que ele é um propagandista do ideário ateísta. Por isso, a frase não é uma lamentação, ao contrário, o autor (1) não crê na existência da alma e (2) manifesta esperança de que a ciência venha a provar a falsidade da ideia de alma.
Para compreender qualquer frase, é preciso trazê-la para a realidade. Então, precisamos pensar sobre o que significa na realidade de nossa vida a existência ou não da alma. Mas para pensar sobre o impacto da existência de alguma coisa, antes precisamos saber o que essa coisa é, não através de uma definição de dicionário, mas descrevendo-a na realidade de nossa vida. É isso que procurarei fazer agora, a meu modo.
Sabemos que desde que nascemos somos a mesma pessoa, que há uma identidade, uma continuidade de quem somos. Mas de onde tiramos essa certeza? Da forma de nosso corpo?
Sei que meu corpo muda constantemente. Quando criança, ele era muito diferente do que se tornou quando me tornei adulto, e será muito mais diferente ainda quando for velho. A diferença é tanta que dificilmente acertamos, olhando para um conjunto de fotos de crianças mais ou menos parecidas, qual corresponde à infância de um senhor idoso que está à nossa frente.
Desde que nascemos, nossos órgãos crescem em tamanho, mudam de forma etc. Nem o cérebro permanece igual. O cérebro do bebê ainda vai aumentar muito sua quantidade de neurônios; depois, com o avançar da idade, muitos neurônios vão morrer. O cérebro muda muito. Então, se o cérebro ou a forma do corpo fossem a base de nossa identidade, teríamos que achar que o bebê era uma pessoa, a criança é outra diferente, o adulto, uma terceira, completamente diferente, não é?
Ah! Mas sei que algo no corpo permanece igual: o DNA não muda. Então será o DNA a fonte dessa percepção de que somos sempre a mesma pessoa? Não pode ser, porque irmãos gêmeos têm o mesmo DNA, e mesmo assim não são a mesma pessoa.
Então o que permanece sempre igual em nós, para nos dar essa percepção de continuidade? Talvez sejam certos gostos e certas ideias que tenho? Não, observando minha vida, vejo que hoje tenho gostos, crenças e opiniões muito diferentes da criança que fui, e até mesmo do adulto que fui há alguns anos. Um dia, o sujeito odeia café, anos depois, é amante dessa bebida. Um dia, o sujeito é comunista, anos depois, conservador. Não há continuidade em nossos gostos e ideias.
Talvez a impressão de ser a mesma pessoa, e não outra, apesar das mudanças, deva-se à memória? Mas, quando nasci, não tinha memória nenhuma; hoje tenho muitas. Pela memória, sou diferente do bebê que fui. A cada dia acrescento novas memórias e perco algumas antigas (Creio que já teria esquecido quem sou, se dependesse de minha pobre memória para isso...). Inclusive é fato conhecido na psicologia que muitas pessoas produzem muitas falsas memórias nas quais acreditam de coração. A memória também muda muito.
Além disso, sei que se alguém apagar totalmente o quadro A Mona Lisa de Da Vinci, sobrará apenas uma tela como qualquer outra, a tela em branco não será mais A Mona Lisa. Mas quando um ente querido sofre de grave perda de memória, como os que sofrem de amnésia ou de Alzheimer, ainda sabemos que a mesma pessoa está ali. Não achamos que o que sobrou virou outra coisa, não dizemos: Não sei quem é essa pessoa, nunca a vi.
A propósito, se perdesse toda a minha memória, viraria outra pessoa? Não, seria a mesma pessoa, agora sofrendo outra mudança. Mas nem faria sentido falar de mudança, se não houvesse algo que permanece por baixo das inúmeras mudanças.
Quando digo que alguém mudou de cor porque tomou sol, só posso falar isso porque outros aspectos do seu corpo não mudaram. Senão, não seria o mesmo corpo apenas mais escuro, seria outro corpo. Da mesma forma, quando digo que todos os aspectos (forma, cérebro, opiniões, gostos, memória etc.) mudaram em mim, só faz sentido falar de mudança, porque sei que algo em mim não muda.
O que é essa coisa que não muda nas várias fases da vida, no prazer e na dor, na alegria e na tristeza, mas que está por baixo de todas essas dramáticas mudanças? É a isso que chamamos de alma. Não a vemos com os olhos da cara, mas sabemos que ela está lá, porque a vemos com os olhos da inteligência; como um matemático é capaz de ver a figura de uma parábola ao olhar para a equação y = x2 + 2x + 1.
Além disso, se a alma independe das mudanças na forma do corpo, no cérebro, no humor, na memória etc., é razoável pensar que a morte não a afete também, porque morrer é sofrer mais uma mudança no corpo.
A existência da alma é o que se chama de verdade autoevidente. Verdades autoevidentes são aquelas que reconhecemos porque não temos como pensar o contrário. “O pai é mais velho que o filho”, “o menor não pode conter o maior”, “um quadrado tem duas diagonais”, “continuamos sendo nós mesmos” são exemplos de verdades autoevidentes. É nas verdades autoevidentes que podemos ter o maior grau de certeza, a certeza absoluta. Não temos como negá-las, com sinceridade.
A ciência, por outro lado, não se encontra no reino da certeza. Podemos ter completa certeza apenas em conhecimentos que não podem vir a ser contraditos quando novas observações são feitas, quando novos fatos surgem ou quando os fatos já conhecidos são reinterpretados.
Esse não é o caso das ciências naturais, afinal, teorias sempre podem ser derrubadas (por mais irrefutáveis que parecessem por um tempo), quando novas observações e novas interpretações são trazidas para o debate. Prova disso é que muitas vezes isso ocorreu, ao longo da história. Basta isso para compreender que a ciência não tem como negar verdades autoevidentes. Ao contrário, a boa ciência parte de e se fundamenta em verdades autoevidentes.
Mas se não é possível negar sinceramente verdades autoevidentes, e a existência da alma é autoevidente, estaria sendo sincero o Sr. Dawkins quando escreve a sua frase? Isto é, ele pode dizer que a alma não existe, mas pode realmente viver segundo essa afirmação? Creio que não.
Ora, ninguém dirá que uma bolha de sabão tem o valor de um ser humano, nem mesmo o Sr. Dawkins. Mas se ele realmente acreditasse que seres humanos são meros conjuntos de células, que geram determinados efeitos interessantes e desaparecem em poucos anos, seríamos pouco mais que um amontoado organizado de bolhas de sabão. Ele não poderia, sinceramente, dar mais valor à própria vida do que daria à de um ouriço-do-mar. Também não poderia amar ninguém, não poderia amar seus pais, nem seus filhos, nem sua esposa. Afinal, como alguém poderia amar realmente um mero amontoado de células, que se desfará em tão pouco tempo?
E, se não houvesse alma, também não faria sentido punir um criminoso anos após o crime ocorrer, porque tudo nele teria mudado; estaríamos punindo uma segunda pessoa pelo crime da primeira. A relação entre o criminoso e ele mesmo anos depois seria apenas a de o primeiro ter gerado o segundo (análoga à relação de pai e filho). Se punimos o criminoso, é porque sabemos que algo nele permanece o mesmo, muitos anos depois. A punição é um reconhecimento da existência de uma alma. E tenho certeza de que o Sr. Dawkins clamaria por justiça, caso um ente querido seu fosse assassinado, por exemplo.
Portanto, lamento informar ao Sr. Dawkins que a alma existe, que a ciência jamais terá como provar o contrário, e que ele apenas finge acreditar no contrário (talvez até para si mesmo).
Observação:
Para quem ainda tiver dúvidas sobre a sobrevivência da alma à morte do corpo, embora seja desnecessário provar verdades autoevidentes, as provas existem. Quem quiser conhecê-las leia os seguintes livros, escritos por médicos e pesquisadores científicos:
O Cérebro Espiritual, de Mario Beauregard (Saiba mais...).
Recovering the Soul, de Larry Dossey (Saiba mais...)
Mindsight: Near-Death and Out-Of-Body Experiences in the Blind, de Sharon Cooper e Kenneth Ring, PhD (Saiba mais...)
Light and Death, de Michael Sabom (Saiba mais...)
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