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Vocabulário: o que significa ceticismo

Atualizado: 18 de mar. de 2020

O ceticismo é uma armadilha. Apanhado nela, você nunca mais entenderá nada.

[ ceticismo, subjetivismo, relativismo, verdade, conhecimento ]





A palavra cético é usada, hoje em dia, com dois significados muito diferentes, eles são expostos a seguir.


Acepções da palavra cético


O uso mais popular, hoje em dia, tem sido aquele que toma a palavra cético como sinônimo de descrente. É nesse sentido que a palavra é usada em frases como: “... já cético quanto à cura, aceitou um tratamento alternativo” ou “... sou cético quanto à existência de Deus ...”. Inclusive, é graças ao uso repetido dessa palavra no contexto da descrença religiosa que, em alguns círculos, cético passou a ser considerado sinônimo de ateu ou não-religioso.


Apesar desse sentido ter se popularizado, o uso mais apropriado da palavra é outro: cético é, propriamente, o seguidor de uma corrente de pensamento denominada ceticismo.


O cético (radical) é aquele que sustenta que nada se pode conhecer e que nenhuma afirmação pode ser verdadeira ou falsa. Pirro de Élis (360 a.C. — 270 a.C.), que viveu séculos antes de Cristo, considerado fundador dessa corrente de pensamento, dizia que, uma vez que a mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, seria impossível saber qual opinião é a correta. Para ele, a diversidade de opiniões entre os sábios seria prova de que o conhecimento é impossível. Toda afirmação sempre se pode ser contraposta por outra. Assim, segundo ele, podemos ter opiniões, mas não certeza ou conhecimento. E, como não poderíamos ter certeza de nada, mesmo quanto às afirmações mais corriqueiras, ele ficou famoso por pregar que a nossa atitude frente às coisas deveria ser a completa suspensão do julgamento.


Daqui em diante, neste texto, sempre que usarmos a palavra cético estaremos nos referindo a este segundo significado.



Refutação do ceticismo


A seguir, mostro dois caminhos pelos quais essa ideia foi cabalmente refutada. Primeiro, é fácil constatar que o ceticismo é autocontraditório. Porque, de um lado, se a declaração que expressa a visão do cético (i.e., a impossibilidade de ter certeza sobre o que quer que seja) é uma que ele considera verdadeira, então, ao menos uma declaração é verdadeira para ele. Logo, ele se considera, sim, capaz de conhecer a verdade.


Por outro lado, se a declaração que expressa a visão do cético não for nem verdadeira nem falsa (como ele diz que são todas as afirmações), então porque iríamos prestar atenção ao que ele diz? (Adler, 1984, p.34).


O ceticismo é autocontraditório.

Certa vez, numa aula, para melhor demonstrar o absurdo da afirmação cética, o prof. Olavo de Carvalho sugeriu que, imediatamente após o cético declarar que “não se pode ter certeza sobre nada”, perguntássemos a ele: “Bem, se é assim, você está mesmo aqui neste momento? Posso crer que você disse isso mesmo ou não posso jamais saber se você disse ou não alguma coisa?”. Creio que isso basta para demonstrar quão ilógico é o ceticismo.


Em segundo lugar, como David Hume notou, a visão cética pode ser defendida verbalmente, mas não pode jamais ser posta em prática. Os próprios céticos não vivem segundo ela, porque, se o tentassem, morreriam. Se o cético pusesse em dúvida, por exemplo, se precisa ou não comer, ou se pular do décimo andar faz mal ou não, ele não duraria muito.


De fato, nas ocupações da vida comum, estamos todos comprometidos (incluindo os que se dizem céticos) com a visão de que a verdade ou a falsidade podem ser apuradas e que, de acordo com vários graus de confiança, podemos discriminar entre o que é verdadeiro e o que é falso. Adler ilustra bem este ponto:


Por exemplo, nós aceitamos a avaliação do tribunal do júri como uma forma de decidir disputas sobre questões de fatos. O prisioneiro no tribunal foi visto fugindo da cena do crime? O testamento foi assinado pelo falecido quando ele estava de posse de suas perfeitas faculdades mentais? Testemunhas são chamadas para dar testemunho em resposta a tais perguntas; e, pelo exame direto ou cruzado dos testemunhos, os advogados tentam aumentar a credibilidade das respostas aos olhos do júri ou diminuí-la. Quando todas as evidências foram examinadas e o júri terminou as suas deliberações, o veredito que eles apresentam declara a verdade (...). É isso o que significa a palavra ‘veredito’ – a declaração da verdade” (Adler, 1984, p.35-36).



Ceticismo subjetivista


Contudo, o ceticismo mais encontrado, hoje em dia, não é esta versão mais radical. Em geral, ele toma as formas, um pouco menos radicais, do subjetivismo ou do relativismo.


O subjetivismo afirma que há apenas opiniões, umas tão válidas quanto as outras. Subjetivistas repetem aquelas expressões e máximas mal compreendidas que há muito viraram chavões: “isso pode ser verdadeiro para você, mas não para mim” ou “ninguém é o dono da verdade”. E não tardam também a mostrar aquelas figurinhas, como a seguinte, dando a entender que não há certo e errado, mas apenas “pontos de vista”.

Jamais se dão conta, porém, de que o autor do desenho escreveu 6 ou 9, não as duas coisas; e que, portanto, um dos dois está certo e o outro errado .


A máxima citada acima deveria apenas nos levar a compreender que, algumas vezes, nos enganamos devido ao nosso ponto de vista (devido à posição da qual olhamos), para que tenhamos compaixão por aquele que se encontra em erro (para tirá-lo de lá). Ela não quer fazer crer que não exista certo e errado.


Ademais, sendo uma forma de ceticismo, o subjetivismo é igualmente autocontraditório. Se perguntarmos ao subjetivista se a declaração dele (de que “qualquer opinião é tão válida quanto a contrária”) é a verdade mesmo ou se ela é tão válida quanto a negação dela (a de que há opiniões objetivamente verdadeiras e falsas), ele ficará aturdido.


E se ele, acaso, disser que sua opinião é tão válida quanto a contrária, por que deveríamos dar atenção ao que ele está falando? Uma declaração tão válida quanto a contrária não nos informa absolutamente nada. É como se perguntássemos a alguém na rua: “Para que lado fica a casa de Fulano de Tal?” e a pessoa respondesse: “Para a direita. Mas também pode ser para a esquerda”. Isto é, ficamos na mesma!


O subjetivismo é apenas uma espécie de “pegadinha” ou um tipo de “encantamento mau” que turva a inteligência. Porém, para a pessoa não enfeitiçada é fácil entender que nós não tornamos uma afirmação verdadeira ou falsa por concordar ou discordar dela.


Imaginemos, por exemplo, uma diferença de opinião sobre a quantidade de montanhas que ultrapassam os 2.700 metros de altitude no Brasil. Uma pessoa diz que o número é 10, a outra diz que há menos que isso. A declaração da primeira pessoa será verdadeira ou falsa, independentemente do que ela ou a pessoa que contesta a resposta pensem sobre isso. O critério para dizer quem está certo e quem está errado não é a convicção subjetiva que cada um tem na sua opinião, é a conformidade ou não da opinião com a realidade. Como brinca Mortimer Adler, o cálculo errado não invalida a tabuada.


Em segundo lugar, novamente, um subjetivista não vive segundo aquilo que prega. Uma das muitas pessoas que notou isso foi o escritor C.S. Lewis, que escreve:


O mais extraordinário, porém, é que, sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em seguida este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mesma coisa, ele lhe dirá: ‘Não é justo!’ antes que você possa dizer ‘Cristóvão Colombo’” (Lewis, 2017, p.33).



Ceticismo relativista


Outra forma de ceticismo, o relativismo, por sua vez, “faz a veracidade de uma declaração depender das circunstâncias de tempo e espaço. Todos já ouviram comentários tais como: ‘isto pode ter sido verdade na Idade Média, mas não é mais verdade’ ou ‘Aquilo pode ser verdade para pessoas primitivas, mas não é verdade para nós’” (Adler, 1984, p.43).


O erro é semelhante ao do subjetivismo: confundir a veracidade ou não de uma afirmação com a aceitação ou não dela por um determinado grupo de pessoas, em um lugar ou uma época.


Digamos, por exemplo, que Fulano matou Beltrano. Se isso aconteceu mesmo, não há mais como desfazê-lo. Por mais que o Fulano engane todos para fugir ao castigo, isso não mudará a verdade. E mesmo que, no dia seguinte, Beltrano tenha sido ressuscitado milagrosamente, isso não mudaria a verdade de que Fulano o matou na véspera. Isso reverteria apenas as consequências do ato, não o ato em si.


Se não compreendermos isso, não poderemos entender o significado da palavra fato, porque o termo está carregado desse sentido (fado, feito, consumado, destino que se revelou...) aquilo contra o que ninguém mais pode lutar.


Sendo o fato sempre imutável, “se uma dada declaração sobre ele foi alguma vez objetivamente verdadeira, ela será verdadeira para sempre e imutavelmente... O que é mutável e variável com as circunstâncias de tempo e lugar são as opiniões que se têm a respeito do que é verdadeiro ou falso, não o que é objetivamente verdadeiro ou falso” (Adler, 1984, p.43).


Algumas vezes, a mudança ocorre apenas em nossas mentes e não na realidade; outras, a realidade mesma muda, mas isso não muda os fatos anteriores. Por exemplo, a população de um país muda com o passar do tempo, mas uma declaração sobre o tamanho da população, em dado momento, (se estiver certa num primeiro momento) permanece verdadeira para sempre, se estiver acompanhada da data do censo, mesmo posteriormente quando a população aumentar ou diminuir.


Fatos não podem ser desfeitos uma vez que tenham entrado para o campo da existência, por isso dizemos que são perpétuos. Mas também há fatos eternos, que sempre existiram e sempre existirão, como o “2+2=4” ou “os ângulos internos de qualquer triângulo somarem 180º”. Essas verdades fazem parte da estrutura mesma da realidade e existiam antes de existir qualquer coisa a ser somada e continuarão a ser verdades ainda que não exista nenhum objeto triangular. Para quem pensava que “nada é eterno”, eis aí algo eterno.


E como há leis eternas para quantidades e para triângulos, há também para o que cada espécie animal deve ser, assim como há leis eternas para o que o ser humano deve ser e como deve se comportar.


Para quem pensava que “nada é eterno”, eis aí algo eterno.

Todos nós, no fundo, sabemos da existência dessas leis não-escritas, porque, no instante em que alguém nos faz um mal, prontamente gritamos: “Hei! Isso não é justo!”. E se protestamos contra o outro as suas injustiças para conosco, é porque sabemos que ele também conhece, em seu coração, essas leis não-escritas, mesmo que ele seja uma pessoa sem instrução formal.


Como disse C.S. Lewis, se não houvesse essa lei universalmente reconhecida, não teríamos base para protestar contra os genocídios promovidos por nazistas e comunistas, porque eles simplesmente poderiam não conhecer essas leis. Não, de fato sabemos que eles as conheciam e deliberadamente as violaram.


Os relativistas, por outro lado, contestam a existência de uma lei que sirva de norma para todos os seres humanos, eles pregam a existência muitas leis diferentes, de modo que o certo para um é o errado para outro. Em geral, buscam ressaltar variações das doutrinas morais dos povos para alegar a inexistência de um padrão único de certo e errado. O trecho a seguir de C.S. Lewis demonstra a falsidade da alegação:


É certo que existem diferenças entre doutrinas morais dos diversos povos, mas elas nunca chegaram a constituir algo que se assemelhasse a uma diferença total. Se alguém se der ao trabalho de comparar os ensinamentos morais dos antigos egípcios, dos babilônios, dos hindus, dos chineses, dos gregos e dos romanos, ficará surpreso, isto sim, com o imenso grau de semelhança que eles têm entre si e também com os nossos próprios ensinamentos morais. Reuni alguns desses dados concordantes no apêndice que escrevi para um outro livro meu, chamado “A Abolição do Homem”. Porém, para os fins que agora temos em vista, basta perguntar ao leitor como seria a moralidade totalmente diferente da que conhecemos. Imagine um país que admirasse aquele que foge do campo de batalha, ou em que um homem se orgulhasse de trair as pessoas que mais lhe fizeram bem. O leitor poderia igualmente imaginar um país em que dois e dois são cinco. Os povos discordam a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruísta – sua família, seus compatriotas ou todo o gênero humano; mas sempre concordam em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergem quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode simplesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer” (Lewis, 2017, p.32).


É fácil perceber que o argumento do relativismo é vazio e carrega uma dose de hipocrisia, porque a mesma pessoa que nos dirá, por exemplo, para respeitar a cultura de povos que oprimem as mulheres ou que matam crianças indesejadas (porque não somos “donos da verdade” ou “não há certo e errado”), no momento seguinte, protestará contra noções e preconceitos presentes em sua própria cultura que ele julga prejudicar a própria vida. E, neste caso, dirá que sabe efetivamente que essas noções são erradas e que a existência da injustiça é absoluta verdade, não apenas uma opinião.


O ceticismo é uma armadilha


Enfim, embora completamente refutado há séculos, ainda assim o ceticismo, sob suas variadas formas, volta à moda, por ser conveniente para alguns, pelo condão que tem de nublar o entendimento dos adversários. Para quem deseja realmente avançar numa vida de estudos, ele é uma armadilha a ser evitada. Porque as pessoas que se deixarem enredar produzirão apenas jogos de palavras, jamais poderão produzir algo realmente valioso em termos intelectuais.


Referências


ADLER, Mortimer J. “Six Great Ideas: Truth, goodness, beauty, liberty, equality, justice”. New York: Collier Books- Macmillan Publishing Company, 1984.


LEWIS, C. S. “Cristianismo Puro e Simples”. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

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